Cólica renal ninguém esquece.Várias são
as frases que escutamos nos consultórios: "A gente
quer morrer, é 20 vezes pior do que dor de dente",
"Parece uma faca sendo enfiada nas costas", "Dói
mais que dor de parto". Todos os autores destas frases
sabem exatamente o que é ter litíase, calculose
urinária ou cálculo renal. É tudo a mesma
coisa: a popular pedra nos rins, responsável pela temida
cólica renal. Dos 176 milhões de brasileiros,
10% já tiveram, têm ou terão cólica
renal ao menos uma vez na vida. São quase tantos quantos
os habitantes da Grande São Paulo ou do Estado de Minas
Gerais ou do Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos.
A maioria adultos, principalmente de 20 a 45 anos.
Não à toa, boca-a-boca, receitas e conceitos
populares (alguns certos, outros errados) disseminam-se de
Norte a Sul. Você, por exemplo, considera verdadeiras
quais das afirmações abaixo?
1. Guaraná, Gatorade e Coca-Cola formam pedras.
2. Cálculo renal é uma doença sem gravidade.
3. Chá de quebra-pedra dissolve as pedras.
4. Cólica renal é sinal de que a pedra está
andando.
5. Tomar bastante água na hora da cólica ajuda
a expelir o cálculo.
Pois essas cinco afirmações são -Atenção!
-100% falsas. Por isso, se você já penou com
a doença, há ainda o que aprender para se livrar
das pedras, até porque a litíase é uma
das doenças mais cercadas de idéias equivocadas
no Brasil. Agora, se você nunca teve tão dolorido
desprazer, um alerta: não há como garantir que
nunca o terá, uma vez que a litíase pode ocorrer
da infância à velhice, em homens e mulheres.
Ao contrário do que muitos acreditam, nem sempre é
uma doença tranqüila. O rim é um órgão
suicida, e por causa de cálculos pode-se até
perder os dois.
Mas porque se formam as pedras?
Imagine uma sala de 1 milhão de metros quadrados com
dez pessoas circulando. Quase certamente elas nunca se esbarrarão.
Em compensação, num cubículo de 1 metro
quadrado todas se acotovelarão. Na urina, pode acontecer
o mesmo. As substâncias químicas produtoras de
pedras equivalem às pessoas. Quanto menos água
se ingere, maior a probabilidade de as substâncias formadoras
de pedras se encontrarem e constituírem um cristal,
ou seja, uma micropedra. Quando isso ocorre, a tendência
é outros cristais se grudarem no inicial. Aí,
aumenta de tamanho e vira uma pedra. Guardadas as dimensões,
é como colocar açúcar em um copo com
água, misturar e deixar evaporar. Aos poucos, grânulos
se depositarão no fundo, se juntarão e, finalmente,
empedrarão. A menos, claro, que se ponha continuamente
água no copo, impedindo a formação dos
cristais. Não à toa a água é o
nosso grande fator de proteção contra as pedras.
Quem já teve, só de começar a tomar líquido
suficientemente tem o risco de produzir outras diminuído
em 60%.
Mas atenção: nem todo mundo que bebe pouca água
terá litíase, embora o péssimo hábito
aumente o risco. Além do baixo consumo de líquidos,
as pedras podem se formar devido à diminuição
de substâncias inibidoras de cristais urinários
e principalmente ao
excesso de sais minerais na urina. Conhecer esses envolvidos
é outro passo vital para se livrar das pedras renais.
A maior incidência de cálculos renais está
associada ao abuso de certos alimentos. Destacam-se:
1. Carne bovina: eleva o cálcio e o ácido úrico
na urina e diminui o citrato, substância que protege
contra as pedras.
2. Leite e seus derivados: são ricos em cálcio.
3. Frutos do mar, anchova, atum e sardinha: aumentam o metabolismo
de ácido úrico e sua excreção
na urina.
4. Sal de cozinha ou cloreto de sódio: altera o processo
de filtração dos rins, levando à maior
eliminação de cálcio na urina.
5. Lingüiça, mortadela, presunto, salsicha, peixes
defumados, bacalhau e azeitona verde: por conterem muito sal,
eliminam mais cálcio na urina.
Na maioria dos casos, porém, o excesso de cálcio,
ácido úrico, oxalato e cistina na urina não
é por exageros alimentares. Defeitos no metabolismo
dessas substâncias são a causa: estão
presentes em até 80% das pessoas que vivem formando
cálculo urinário.
Distúrbios no metabolismo do cálcio são
os mais comuns. Seu aumento na urina pode ser porque o intestino
o absorve demais ou porque os rins manipulam mal o mineral,
eliminando-o além da conta. Ou ainda por alterações
nas glândulas paratireóides. Localizadas ao lado
da tireóide, são o "maestro' do cálcio
no nosso organismo: extraem-no dos alimentos, colocam-no nos
ossos, mandam os rins expulsar o excesso. Mas, se não
estiverem funcionando direito, aumentam o cálcio na
urina.
Distúrbios no metabolismo do ácido úrico
também são freqüentes. Toda vez que você
ingere proteína (animal ou vegetal), o organismo precisa
quebrá~la em pedacinhos menores (aminoácidos)
para poder usar. Nesse processo, principalmente a de origem
animal, produz um "lixo', o ácido úrico.
Só que, por um erro metabólico, algumas pessoas
fabricam muito "lixo' e vão ter bastante para
jogar fora. Quando não conseguem, o ácido úrico
sobe no sangue. É a hiperuricemia. Ele pode ir para
juntas e articulações, dando crises de gota,
que doem muito. Ou ir para os rins, formando pedras de ácido
úrico.
Como se faz o diagnóstico?
O diagnóstico de todo cálculo é feito
com base num tripé: Histórico de sintomas do
paciente, avaliação física e exames de
imagem, que ajudam a decidir o que fazer em cada caso. A radiografia
simples e o ultra-som abdominal, juntos ou associados, são
os métodos mais usados no Brasil.
Tratamentos Clínicos ( Com remédios)
Se for de ácido úrico, ótimo. Dá
para dissolver. É o único. Esse tipo de cálculo
se forma quando a urina está muito ácida. Torná-la
mais alcalina é o tratamento. No caso de o ácido
úrico estar aumentado apenas na urina, o remédio
é simples e barato: 1 colher (chá) de bicarbonato
de sódio misturado à água a cada 12 horas.
Em semanas ou meses, dissolve inclusive os cálculos
grandes. Mas atenção! Nem todo mundo pode tomar
bicarbonato de sódio: os hipertensos, os cardíacos
e os portadores de insuficiência renal estão
proibidos. Nesse caso, o médico poderá prescrever
citrato de potássio.
E o famoso chá de quebra pedra ou água da bica?
Se o cálculo for calcificado, ou seja, à base
de cálcio, não tem o que o dissolva. Poderá
sair sozinho ou ser retirado. Mas, de antemão, é
imensa a probabilidade de o médico dizer: "Vá
para casa, espere a pedra sair". Esse é o tratamento
expectante. Significa observar apenas. É a conduta
recomendada quando o cálculo tem menos de 5 milímetros
e condições de ser expelido. As estatísticas
estão a seu favor: 90% dos cálculos com menos
de 5 milimetros são expelidos pelo organismo em horas
ou dias, independentemente do que se faça. Em outras
palavras: tanto faz você tomar chá de quebra-pedra,
picão, folha de abacateiro ou água de torneira,
a pedra vai embora de qualquer jeito.
Certamente alguns leitores retrucarão: "Mas chá
de quebra~
pedra funciona, não funciona:” Tanto quanto você
tomar água pura. Esse chá, como muitos
outros, tem certo poder diurético. Em conseqüência,
aumenta a produção de urina, o que ajuda a eliminar
a pedra. Assim como age a ingestão de qualquer liquido.
O que faz o cálculo sair é a urina, que o"empurrará”.
Mais: nem o quebra-pedra nem outras plantas têm a capacidade
de quebrar ou dissolver pedras. Porém, como a eliminação
espontânea do cálculo urinário é
altíssima, todo tratamento popular já tem de
saída cerca de 90% de sucesso garantido.
E a cerveja?
Toda forma de liquido obviamente ajuda. Porém, há
o risco de ficar alcoolizado, vomitar, desidratar e piorar.
Portanto, não é recomendável. Fique na
água e nos chás.
No próximo domingo escreverei sobre os tratamentos
para se “retirar” as pedras maiores e principalmente,
como se prevenir das pedras nos rins. Fiquem atentos!
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